Usuário
  
   Senha
    PESQUISA
  
   
Link Flash
 
• A Porta Vermelha (Arnaldo Andrade) (E)

Red Door

A Porta


A porta pintada de uma tinta vermelha, que por si só já era brilhosa. Mesmo assim uma camada espessa de verniz foi passada por cima. A maçaneta estava um pouco enferrujada por causa do tempo. Sim, podia-se notar, apesar dos disfarces. Um mau observador não notaria. Podia-se dizer que quase todos eram maus observadores diante daquela porta, já que seus olhos eram capturados pelo vermelho-sangue e pelo brilho do verniz. Quem procuraria defeitos enquanto a curiosidade aumentava sobre o que se escondia por trás da muralha? Enquanto a vontade de entrar aumentava cada vez mais e o brilho convidava?

Ninguém

Ela não teve tempo de desencantar com as cores. Não teve tempo o suficiente para procurar a ferrugem. Sim, ela sabia que existiam defeitos em toda a magia que aquela simples porta a fornecia, mas o convite tinha lhe ofuscado a visão.

Não

Ela não sabia reconhecer que havia cometido muitos erros, e mesmo diante da obviedade do vermelho daquela porta insistia que o melancólico convite da liberdade de estar do lado contrario da porta seria o bastante para encher os seus dias.

Tempo

E a porta se transformou, como tudo nessa vida, ela tingiu-se de um azul fascinante, mais intenso do que o vermelho, e não mais estava fechada, livre da maçaneta enferrujada, livre da alcunha de ser uma muralha, perfeita, apesar de continuar a ser apenas uma porta.

Fim

Ela não teve tempo de ver a metamorfose, já se encontrava tão distanciada, mergulhada em suas próprias fantasias, sonhando com a porta transparente que não existia, imersa em suas magoas e ressentimentos, imersa em suas duvidas, aflições e orgulhos estúpidos, que nem percebeu, que uma porta pode ser pintada diferentemente dos dois lados.

 

• Você precisa me conhecer (Arnaldo Andrade) (E)

Conhecer

Você precisa me conhecer. Gosto de ouvir Beautiful do Belle e Sebastian quando vou para o trabalho, me lembra daquele dia; Gosto de ouvir In My Place do Cold Play, me deixa triste no momento exato para lembrar de como você me faz falta;

Adoro meu computador, na verdade e parte de mim, nele eu escrevo, trabalho, crio e relembro fatos importantes, e é nele também que existe o único canal de contato com você, que mantém os meus dias cheios enquanto espero o final desta história;

Tenho a mania de guardar tudo sobre a minha vida, fotos, receitas, lembranças de infância, brinquedos, quadros e tudo mais que posso juntar, como num museu do Arnaldo esses objetos garantem que toda as minhas lembranças aconteceram de verdade;

Gosto de rever os amigos na quinta-feira, no inicio eram grandes grupos e grandes festas, o tempo passou e apenas os descasados, solteiros e eventuais acompanhantes aparecem agora para duas horas de chopp, depois todos estão velhos demais para esticar a noite;

Gosto de música, música de verdade, antiga ou nova, pesada ou lenta, desde que não esteja muito alta;

Gosto do inverno, na verdade gosto das roupas do inverno, elas me deixam mais novo, também gosto de um bom vinho no frio, o amor também fica mais gostoso com roupas de lã;

Leio muito, de tudo, vejo filmes diariamente, eles me garantem o conhecimento necessário para vencer o tempo com alguma sabedoria;

Sei cozinhar, lavar, passar, consertar coisas que vão de computadores a equipamentos pesados, pintar quadros e paredes, tocar vários instrumentos, programar, falar mais de dois idiomas ainda que timidamente, plantar arvores, escrever poemas sem sentido e desenvolver coisas, conversar sobre história e jogar videogame, tudo mais ou menos, para não perder o romantismo;

Não gosto do natal ainda, mais gosto do ano novo e também de me empanturrar na páscoa de chocolate;

Acho um vestido longo lindo e se você estiver dentro dele vamos dançar até de manhã; Amo você e tudo que te diz respeito, e de agora em diante... ...quero apenas te conhecer.

• Fim (Arnaldo Andrade) (M)

Cartier

Tudo acaba "poder" e tomar decisões, certas, erradas, aleatórias, confusas ou praticas, você toma uma decisão por você e muda a vida de alguém, poder e poder fazer e continuar fazendo o que bem entende.

 

• Por Enquanto (Arnaldo Andrade) (EM)

Beijo Doce

E lá estavam eles, naquele trailer, naquela cidade de apenas uma rua, naquele frio, somente um parco aquecimento, culpa do clima reinante naquele momento. Apos um breve sobre o ambiente alimentada pela cerveja duplamente refrigerada e algumas doses de conhaque devidamente colocadas sobre a mesa, a aproximação ocorria naturalmente independente do frio. Foi quando ele saiu com essa.

Ele: -mudaram as estações...

Ela: -para...

Ele: -nada mudou...

Ela: -assim não vale...

Ele: -mais eu sei que alguma coisa aconteceu...

Ela: (já com os braços em volta do pescoço dele): -Hummm...

Ele: (já cantarolando no pe do ouvido): -Ta tudo assim tão diferente, se lembra quando a gente, chegou um dia a acreditar, que tudo era pra sempre, sem saber, que o pra sempre, sempre acaba...

E deram um longo beijo, desses que não se esquece por toda uma vida e que nunca mais se repetiu.

E nada vai conseguir mudar o que ficou, quando penso em alguém só penso em você e ai então estamos bem, mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como esta, e nem desistir e nem tentar, agora tanto faz, estamos indo de volta para casa.

E nunca mais se viram nessa vida.

Por enquanto.

(Tema sobre a musica Por Enquanto de Renato Russo)

 

• Vontade (Arnaldo Andrade) (M)

Vontade

"tenho vontade de parar de respirar, de dormir uma semana, de ir atrás de você, de chorar, de rir da minha imbecilidade, de me esconder do mundo e mudar de nome, de beber ate cair pra que acorde.

Você conseguiu o que eu julgava impossível, me fez querer ser outra pessoa"

 

• Trilhas Sonoras (Arnaldo Andrade)

Falta

Quero a marcha fúnebre de Beethoven no meu velório, escolhi a dedo, não quero aquela clássica de desenho do pica-pau, fica parecendo que a qualquer momento o morto vai levantar e jogar uma torta em algum desafeto, a de Beethoven tem um clima, mesmo que você seja um merda fica parecendo um heroi de guerra logo na primeira folha da partitura, ou aquela de Mozart para um quarteto, com aquela nota que nunca termina.

O último segundo de vida.

Se pudesse escolher a do meu nascimento seria “I was born to love you”, não me pergunte porque, sempre que ouço imediatamente me vem a mente uma criança nascendo com o bigode do Freddie Mercury é claro, e de turbante (ele nasceu em Zanzibar e viveu na india), os médicos apavorados sairiam correndo do hospital “Under Pressure”.

Dentro do primeiro carro, tocaria “Highway Star” do Deep Purple, e pegaria a estrada sem destino e claro que ao chegar aos trinta já estaria tocando “Voyage, Voyage”, mais isso é apenas um detalhe, i will survive.

Para a primeira namorada tocaria “All Out of Love” do Air Supply, e ela contaria isso para suas netas, na primeira transa tocaria “Slave to love” do Brian Ferry e assim disfarçaria minha inexperiência, quando meu primeiro filho nascesse eu tocaria “Forever Young” porque nunca mais ele vai ter quatro anos.

Para o meu eterno amor tocaria “Your Song” do Elton John, e assim a faria entender sem dizer uma única palavra de como a minha vida ficou maravilhosa agora que ela está em meu mundo, e quando ela fosse embora tocaria “With or without you”, e veria uma tempestade se formando em seus olhos. E quando terminar que seja ao som de “Ne me quitte pas”, porque se for para me deixar que seja agora e que descambe imediatamente para a tragédia, digna pelo menos de um Oscar de melhor trilha sonora.

 

• A Dúvida (Arnaldo Andrade)(E)

Alianca

Quando o juiz já no final do cerimônia perguntou se ele a aceitava como esposa ele respondeu:

-não tem jeito mesmo...

Ele acabara de responder, diante da noiva grávida, da familia e dos amigos, ficaram todos atônitos com a frase, pronto estava dito, não havia nada mais para ser feito.

E os anos se passaram, até que um dia ela perguntou:

Ela: -Lembra quando a gente se casou?”

Ele: -Sei.

Ela: -Quando você disse não tem jeito mesmo...

Ele: -E daí.

Ela: -Você queria dizer que não tinha jeito porque eu estava grávida, ou porque estava se casando comigo...

Ele: -Não me lembro.

Ela: -Não se lembra do dia do nosso casamento ou não se lembra de ter dito...

Ele: -Não me lembro e pronto.

Ela: -Não se lembra porque não tem importância!!!, não se lembra porque eu não sou nada na sua vida!!!, não se lembra porque você nunca nesses anos todos me deu o valor que eu merecia e!!!....

...e saiu batendo a porta.

Mais ele se lembrava, havia sido mal interpretado por anos mais nunca tentou se explicar...

Quando disse que não tinha jeito mesmo ele queria dizer, que não tinha jeito mesmo, estava apaixonado e ela era a mulher de sua vida, que teriam seus filhos, os veriam crescer, até que eles fossem embora, cuidariam dos netos e quando velhos iriam a padaria de mãos dadas e quando um morresse o outro não duraria tanto, porque não tinha jeito mesmo, iriam passar o resto da vida juntos.

Ele deu um suspiro e foi ver televisão.

 

• O efeito (Arnaldo Andrade)

Caminhada

E quase como uma taça de vinho, seco, duro, existe uma empatia quase que automática, você acha que no dia seguinte ela vai embora, mais o dia seguinte não chega, o dia anterior também não acaba, se acumula, se empilha e forma uma montanha de sensações, tristes, malignas, tudo fica distante e presente ao mesmo tempo, não que ela te faça sofrer, ela te faz lembrar, e ai você se lembra de tudo, de todas as coisas, toma descisões e comete atos impensados por achar que sabe o que está sentindo, mais não sabe, pensa que sabe o que está fazendo, mais não sabe...Quando o dia termina, você termina junto, não adianta se dopar e achar que está melhor, porque não está, não adianta cantar vitória, porque ela sempre vence, quando você para avaliar tudo se foi, amigos, dinheiro, família, base, chão, sua vida...Você ouve histórias e estórias, sobre quem se recupera e hoje vive bem,

....mentiras.....

Ninguém se recupera, porque quando se experimenta o vazio ele nunca mais sai de lá, você olha para o abismo e ele te olha de volta, você acende a luz e tudo continua escuro, você sorri, mais a tristeza te abraça e cerca seu corpo, suas palavras, seus sentimentos...Você se torna insuportável para a única pessoa que te importa, você mesmo, você planeja, pensa, sonha, mais em um minuto ela te devolve para o real da sua existência, sem volta, sem sentido, em pouco tempo a morte deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade, porque não importa onde, quando e com quem você esteja, ela está lá, de braços dados com você, segurando na sua mão e dizendo o tempo todo que tudo vai dar errado. Você não olha mais para espelhos, você não olha mais para o lado e nem sonha, as mínimas necessidades causam uma fadiga insuportável, você se balança e acha que pedaços de você estão indo junto, você se adapta de tal forma que nem se lembra mais de quando era uma pessoa normal, talvez não fosse, mais ainda não a conhecia, por isso agora, quando ela te olha e pisca, você sabe exatamente o que e o inferno.

 

• Seemann (Arnaldo Andrade) (JR)

Triunfo

Voltei para o rio, era evidente que eu faria isso, não me sentiria mais confortável ali.

Foi estranho, na ida para Paquetá o mar tinha outra cor, como antes o céu estava nublado, mais tenho quase certeza que não era a mesma cor ali, a lancha estava cheia também, agora na volta era apenas eu sozinho na proa e o piloto e o ajudante silenciosos devido ao mau tempo e atenciosos pela proximidade de alguns cargueiros, dentro da cabine alguns metros atrás, o navio russo passou a uns 30 metros a direita, alguns homens estavam no convés, pensativos como eu talvez, saudosos de sua terra e de seus amores, três, quatro meses distantes de casa, não era nada, lido com ausências maiores, um vento morno passou por mim, eu conheço esse vento, a forma da água também estava diferente, eu não via mais o mar, olhava a escuridão novamente, era o abismo, abaixo de mim, já não sei se isso me assusta, ele me chama, eu atendo.

Os pesadelos voltaram.

Foi pior dessa vez, sempre é, um capitulo novo a cada novo pesadelo, a cidade prateada está cada vez mais próxima, sua luz já fere nossos olhos acostumados à escuridão, somos muitos, na verdade somos milhares, todos como eu, marchando assustadoramente em direção a luz, com exceção de nosso comandante, logo a minha frente, um manto negro cobre seu corpo como seus cabelos compridos, uma coisa semelhante a uma serpente flutua em volta de seu corpo, se funde e reaparece ao mesmo tempo, imaterial, eles parecem ser a mesma coisa, o vento está cada vez mais forte, aos nossos pés algo semelhante a um oceano composto de imagens, sangue e fragmentos dessa guerra passam ruidosamente, mais meus pés descalços sentem apenas a terra, me sinto estranhamente feliz apesar do medo, a luz me incomoda e quero somente destruí-la, outros vem em nossa direção nesse momento vejo suas silhuetas no horizonte, marcham velozmente, acordo, assustado e com uma sensação terrível de que voltarei para aquele lugar.

Imaginava eu que esse era um sonho de passagem, no inicio apenas uma metáfora do meu subconsciente a minha vida, mais não é, ele é tão real como minha vida consciente, vocês podem estar se perguntando onde está o horror diante disso, e eu digo a vocês que sempre que eu via o quadro “O Triunfo da Morte” eu enxergava uma alegoria lúdica de caveiras e simbolismos medievais, engano meu, eu não estava lá para testemunhar o indescritível, a peste e o horror derivado dela, são como meus pesadelos, e necessário estar lá, para descrever o absurdo, para descrever a essência do próprio abismo, mais uma vez ele me chama e mesmo que eu não queira sou obrigado a atender seu pedido como o farol diante do navegante perdido, ele não sabe se e bom ou mal, na verdade ele não tem escolha.

 

• Clichê (Fernanda Lizardo)

Cliche

Quando criança tocou piano: sempre com métodos de Mário Mascarenhas. Se falasse de flores, eram sempre rosas vermelhas. Dizia que não gostava de novelas. E sempre que queria aparentar inteligência emendava que não via TV. Sua especialidade na cozinha era macarronada. Já quebrou um dedo praticando esportes. De todos os refrigerantes, seu favorito era Coca-Cola. Já fingiu estar doente para chamar a atenção da mãe. Já matou aula. Quando se apaixonava, mudava e mudava-se pela pessoa amada. Pensava ser a única pessoa do planeta que recebia aqueles spams do gênero "eu te amo". Sonhava em ter um jipe importado. No sanduíche gostava de catchup. Dramaturgo brasileiro era Nelson Rodrigues. Estrangeiro, William Shakespeare. Quando bebia champanhe era Chandon. Perfume só de grife. Dizia que não tinha tempo. Dizia que tinha sorte. Noites de sábado eram feitas para dançar. Modernidade era ouvir Belle & Sebastian. Repetia que sua vida daria um livro. Ou um filme. Ou até uma novela, ainda que teimasse em dizer que não as assistia. Brigou diante de qualquer muxoxo provocado. Afirmava não ter medo de sexo. Nem de bicho-papão. Mentia quando lhe perguntavam se era feliz. Já deu cavalo-de-pau na rua com o carro de amigos. Trocava de modelo de celular o tempo todo. Fumou maconha em momentos de fraqueza. Transou com gente errada. Falou mal de amigos e depois desmentiu. E fez ménage à trois. Comprava coisas por impulso. Adorava jujubas vermelhas. Em festas atacava os brigadeiros. Os pais eram separados. E os inimigos sempre considerados mal-amados. Doce era sempre chocolate. E salgado, lasanha ou pizza. Já fumou, parou de fumar, voltou outra vez e parou novamente. Já bebeu e vomitou na rua. Durante a infância foi patinho feio. Já foi turista acidental. Quando quis um MP3 player correu para comprar, ainda que fosse um bem vagabundo. Nos aniversários sempre colava na agenda a letra de Envelheço na cidade do Ira!.

E, o mais importante: repetia o tempo todo que sua vida nada tinha de clichê.

 

 

• Perfect Day (Arnaldo Andrade) (A)

Felizcomvinhos

Antes eu realmente me sentia agraciado de alguma forma por ter acreditado que tinha encontrado o grande amor da minha vida, estranho esse modo humano de querer sempre mais, sempre o maravilhoso mais nunca estando satisfeito com o bom, as grandes conquistas são tão pequenas e especiais, são simples e tão fenomenais.

Foi como essa tarde, pouco importava os grandes romances escritos pelos mestres, Anna Karenina, Isolda ou mesmo a doce Rosalina, pouco entendiam e pouco poderiam me ensinar sobre uma tarde fazendo compras como gente normal, escolher o vinho para a noite, os doces, a comida, dividir um sorvete na lanchonete, ir ao cinema, trocar impressões numa boa livraria, rir, rir dos outros, rir das coisas, rir de nós mesmos, estranho me sentir tão normal, quando eu sorri para você no momento que nossos olhos se encontraram dentro das prateleiras da sessão de vinhos era nisso que eu pensava, quando você entornou sorvete dentro do carro em seu vestido verde claro e ao tentar limpar plagiou a Tarsila Amaral... e a gente riu disso também, e me perguntou se eu estava bem. Sim, eu respondi, mais não era so estar bem, era estar ali, por todos esses dias que você se dedicou a me fazer feliz a qualquer custo, foi pela festa de aniversário mais bonita que já tive, foi pelo natal mais enfeitado que eu já vi, pelos meus amigos e pelos seus, que agora mais do que nunca são nossos amigos, eu com certeza não posso apagar minhas tristezas mais posso acordar e dar uma gargalhada bem alta, entender que carregar sacolas e tão bonito quanto enviar poemas, entender que não precisamos dizer nada se a gente olha um para a cara do outro e eu posso saber que "tamo fechado", se eu não me lembro das horas quando conversamos e somente me dou conta com o amanhecer, acredite, e dificil, muito dificil, mais fica muito mais fácil e mais bonito com você por perto, agora sou eu de novo, uma criação praticamente sua, vivo, me sentindo importante é unico como uma foto de Bresson, maravilhado como se estivesse cara a cara com a La Dama Dell'Ermellino, e com a mesma sensação de renascimento que teve o primeiro ser humano ao descobrir o fogo.

 

• Decepções (Arnaldo Andrade)

TT3

Posso considerar a decepção um processo, existe obviedade, quando você se decepciona quer dizer que predeterminou uma opinião sobre alguma coisa, dedicou valores a algo e assim, deu importância, fez parte. Se decepcionar e perder alguma coisa, pode ser perder tempo ou valores, sentimentos ou confiança, a decepção e a perda com atestado.

Venho de pequenas e grandes decepções, primeiro os valores familiares pelos quais fui criados estavam errados, a agonia em viver de meu pai e a vida de aceitações de minha mãe eram um fato distorcido que eu entendia como normal e regra, ser mais, ser melhor sempre, ser maior do que os outros, eram um imperativo infundado, resultado obvio para quem me conhece refletido em minha personalidade impulsiva e compulsiva.

Depois vieram os relacionamentos, acreditar que o amor aparece com a convivência, acreditar que o dia de amanha será melhor e que o amadurecimento poderia tornar as coisas mais aceitáveis, mudar por alguém, se deixar mudar, aceitar, acreditar que a vida e somente isso e pronto.

Mais não existe decepção maior do que a resultante do amor verdadeiro, posso dizer, praticamente impossível de se superar, e quando a decepção demora a ser entendida tamanha a obviedade e o absurdo que ela representa, depois porque o investimento foi desprovido de razão e assim superfaturado de sensações, envolvimentos e emoções.

Não sei o que fazer no momento, fico entre revisitar o meu passado e tentar salvar o que já deveria ter deixado para trás ou viver o que sobrou de algum jeito, está fora de cogitação me decepcionar novamente, agora e acreditar que a vida pode ser melhor ou aceitar o meu destino. Por enquanto me contento com a minha garrafa de bebida e o meu cigarro, são os únicos que vão me matar mais não me enganam quanto a isso, nunca me decepcionam.

Meu coração mudou de endereço hoje, minha alma de CEP e meu amor de identidade.

• Momento mais difícil (Arnaldo Andrade)

Veja

Sabes qual tem sido o momento mais difícil? Passar por uma prateleira de vinhos, e descobrir que para apreciar um bom vinho precisa de duas pessoas, para uma delas perguntar se a outra gostou do vinho, se esta na temperatura correta, se a outra esta ficando tonta, e principalmente para rir quando o efeito desejado esta para provocar uma longa noite ou no mínimo um sono abraçado com quem se ama; Descobrir que um carppacio com um bom parmesão fica enorme quando se come sozinho, que o queijo não adiciona nada ao paladar sem um trocar de olhares, que o bom esta em ter dois pratos sobre a mesa e nós dois sobre uma cama; Que batatas noisette são chatas e solitárias se não estiverem sido retiradas aos pares, que se tornam frias quando demoram para serem consumidas, que as que ficam para trás tem como um único destino o lixo e o esquecimento; Que morangos com creme de leite são amargos sem o teu beijo, que cenourinhas baby precisam ser dadas na boca, que guardanapos sujos de batom são decorativos e lavar a louça sem um abraço e um beijo nas costas não tem sentido nenhum; Que a luz parcial sobre aquela mesa se torna opaca sem teu brilho e que não existe a menor possibilidade de se tomar um bom café da manha no terraço sem ter amado você por uma noite inteira, que não consigo dividir os meus momentos de prazer comigo mesmo porque eu não como, não respiro e não bebo direito sem você, tudo fica pela metade sem a única alma feita exatamente no meu tamanho; Que os dias se esticaram de uma maneira impressionante e cada minuto agora tem mil segundos de pura espera que não acaba nunca, que o gosto não tem mais sabor sem o teu amor.

Peguei um pão de forma e um presunto dos piores, comprei um maço de cigarros e fui para o meu apartamento vazio.

 

• O Colecionador de Romances (Fernanda Lizardo)

Colecionador

Ele colecionava romances. Nos fundos de casa mantinha uma plantação de rosas multicoloridas. Quando abria a janela do quarto, quase ficava sufocado com o excesso de perfume. Se fosse fazer amor sobre todas aquelas pétalas, morreria seco, de tanto esforço. Em poucas horas não lhe sobraria esperma para pousar nos corpos das mulheres. Enfartaria.

No porão ficava a adega. As garrafas, milimetricamente organizadas, eram incontáveis. Se juntasse todas as rolhas provenientes daqueles vinhos, poderia encher uma piscina olímpica. Caso resolvesse alcoolizar-se com todos os chilenos, franceses e alemães, seu sangue perderia lugar. Deixaria de ser vermelho vivo e se tornaria fúcsia. Ele só gostava de vinho tinto.

Comprava tantas caixas de chocolates, que fez um acordo com a bomboniere da esquina: pagava-lhes mensalidade por todos os doces embrulhados em papel dourado e fita vermelha.

Fazia aulas de canto e retórica para emanar discursos às suas preferidas.

Decorava poesias e imagens de quadros de Rembrandt, só para poder dizer que todas as damas eram figuras Renascentistas.

Sempre que marcava um encontro, saía com uma caixa de bombons debaixo do braço e desdobrava-se para segurar o buquê de rosas e a garrafa de vinho na outra mão. Fitava suas mulheres com expressão carente, inventava versos, embriagava-as em vinho até que cedessem aos beijos ansiosos. No primeiro dia, ficavam encantadas e entorpeciam em perfume, álcool e açúcar. Depois, já não agüentavam mais. Era tudo mesmice. Era tudo ensaiado. Era tudo artificial. A barba por fazer dele logo começava a ferir em torno dos lábios sensíveis das moçoilas. O chocolate teimava em engordá-las. O vinho lhes dava náuseas e ressaca. E o perfume das rosas causava dor de cabeça. Tão logo elas se enchiam de tanta pieguice, ele rareava os encontros, até que não mais as procurava. A maioria ficava aliviada.

Ele então partia para novos caminhos, procurava novas mulheres que pudessem se interessar pelas velhas conquistas. E encontrava. Mas sempre durava pouquíssimo. Não era um romântico. Era apenas um nada que buscava a sensibilidade que a natureza não trouxe. Pensava que a conquista era feita de presentes, de palavras doces, de ensaios, de canções, de beijos. Mas se esquecia de deixar o sentimento puro, a sinceridade e até os defeitos. Queria ser o amante perfeito – e essa era a pior de suas características. Era tão técnico quanto um livro chato. Era previsível. Era uma espécie de manual de instruções. Ensinava a cultivar rosas, a climatizar adegas, a confeitar chocolates.

Mas não ensinava a deixar de ser sozinho.. Era só um colecionador de romances. Mas queria mesmo, amor – e esse, ele nunca havia de experimentar.

 

• Falta (Arnaldo Andrade) (D)

Relogio

"algumas coisas mudaram, outras nunca mudam, você esta fazendo falta, falta porque não tenho mais com quem conversar as coisas que realmente são importantes, falta porque a maior parte das pessoas boas que amo já foram embora cuidar de suas vidas ou a vida cuidou delas, conheci pessoas novas que parecem que estão ao meu lado a vida toda, revi pessoas velhas que deveriam estar esquecidas pois continuam a não acrescentar nada, mais nada repõe a saudade e a ausência, falta e isso, faltar, não estar mais, quando alguém lembra de mim, não sei se fico alegre ou triste de saudade, por isso esse inverno todo, por isso que esta muito frio aqui dentro agora"

 

• Como Recomeçar? (Arnaldo Andrade) (M)

Cabana

Como recomeçar? Por mais estranho que me pareça, a primeira imagem que vem a minha mente e daqueles soldados japoneses que volta e meia eram encontrados em alguma ilha do pacifico onde ficavam por anos e anos escondidos sem saber que a 2? guerra tinha terminado, para eles o mundo em conflito ainda existia e o inimigo maior precisava ser combatido, mais era a realidade que eles viviam, imagine por apenas um momento, em 1978 encontraram um cara (por sinal acho que foi o ultimo), a guerra já havia terminado tinha 33 anos e ele lá estava... como dizer a ele que o mundo era diferente... Como recomeçar?.. Sua esposa se ainda viva provavelmente já estava casada com outro, seus filhos já velhos nem deveriam mais ter a menor lembrança dele, seus amigos já não se lembravam das glorias da batalha, e como dizer a ele que não existia mais guerra?, que seus inimigos agora eram seus amigos?, que suas armas não mais serviam para a luta? Pois como ele haviam envelhecido... Como recomeçar? Dizer a ele que ate então ele estava morto, lutando sozinho por uma guerra que já havia acabado, mais em sua mente era a luta diária pela sobrevivência, a ilusão se aplicava a tudo, lutar, se esconder, bolar estratégias, escrever cartas a família que nunca as receberia... Como recomeçar? Não sei realmente o que disseram a ele, alguém mais espirituoso deveria ter dito que ele era um herói, um herói da existência, um herói do lúdico, um guerreiro solitário que manteve a sua honra e não se entregou ao inimigo bárbaro, mesmo diante de tudo que provavelmente passou durante 33 anos se escondendo e mantendo a luta por seu pais e sua família, mesmo que fosse uma ilusão, não sei o que aconteceu a ele, mais tenho certeza que a verdade foi mais dolorosa que a ilusão e ele deve ter terminado os seus dias amargurado e triste, com saudades de sua ilha onde sonhava em voltar para casa como um general por ter defendido sua ilha ate o fim, ele merecia ate mesmo dos seus inimigos uma recapitulação, um parágrafo histórico no qual ficasse claro que a guerra somente tinha terminado naquele momento em que o ultimo súdito do império se rendeu. Como recomeçar? Mais a realidade e uma só, a guerra acabou, meu pais perdeu, e o mais difícil agora e tentar viver sem a minha ilha, recomeçar outra guerra e impossível, mais também me render esta fora de questão, somente rezar, unicamente para não morrer sozinho. Gomenasai.

• Doce (Arnaldo Andrade) (M)

Doce

Sabe aquele doce que fez para mim? como um a cada dia, ao mesmo tempo e um doce a menos, como também é um dia a mais sem você, são proporções inversas, o doce me traz uma lembrança boa, ao mesmo tempo uma lembrança má pois eles estão acabando, sei fazer doces, mais ai fui que eu fiz e se eles trouxessem algo eu não sentiria tanta solidão e mesmo porque eles não tem o mesmo gosto do doce que faz para mim, queria ter você ao meu lado, não apenas para fazer doces, mais porque não vou ver mais o pote vazio, fazemos assim então: eu postergo o último doce enquanto você não vem, dessa forma aquele último sempre me dá esperança pois pretendo comer deste doce para toda a eternidade, assim vivo eu, comendo dos seus doces e mexendo em nossos guardados, esperando o dia em que o pote estará sempre cheio.

 

• Pré-Esquecimento (Arnaldo Andrade) (E)

Peao

Deveras ser realmente triste, como diria o bardo “esse pré-esquecimento sem vencimento” ao qual confinei você em minhas memórias, fazer tanto mal a sua alma, a ponto de existir satisfação apenas em minha infelicidade, tenho pena de você, que não consegue ser feliz e nem me esquecer nem mesmo quando todas as oportunidades para que isso ocorra são postas a sua frente, nós últimos anos você vagou tal como uma nau perdida no atlântico norte, cercada de gelo e frio, se achando segura pelo revestimento de madeira mofada, alimentada por migalhas comidas por ratos, e o que é mais pandego, se sentindo uma princesa, a grande verdade e uma somente, quando você viu o mar em volta de você não sabia para onde ir, poderia ter ido para os trópicos, mas não foi, parou em qualquer porto, perdeu sua direção, e o navio envelheceu, e agora ou para na primeira ilha ou afunda com seu capitão. E agora, porque queres saber sobre mim, o que te interessa meus amores e minha vida, ficas remoendo e ressentindo, vendo fotos antigas e se arrependendo sem perder o orgulho, o que achas, que voltarei num domingo de manhã, e falarei que tudo está bem e quero você de volta. Engano seu, minha palavra para você e o silêncio, minhas flores para você estão mortas e secas, me deitarei com a morte antes de dividir o mesmo leito onde você se encontra. Você não existe mais no meu mundo.

 

• Perdas e Danos (Arnaldo Andrade) (M)

Perdas

Amor, definir o impossível, apenas uma palavra, uma sensação, como dor, provoca dor também, alegrias, falsas alegrias, falsa sensação de segurança, de posse, falsas promessas, eternidade, quando a grande verdade e que apenas a morte pode ser dar a esse luxo, amor pode ser sexo, sexo pode ser confundido com amor, -eu te amo dito na cama vale tanto quanto a promessa de um viciado, -eu não vivo sem você, mentira, o que te mata e a insegurança, a decepção não a ausência do amor, -você e a minha vida, mentira, cada vida e única e todos vivemos com ou sem alguém, -sou fiel a você, mentira, cada pensamento livre, cada olhar a outro alguém e uma traição em potencial, -so foi daquela vez, outra mentira, a traição sobrevive da pura repetição, -viveremos e morreremos juntos, outra mentira, a não ser que estejam no mesmo desastre, -penso em você todo o tempo, mais mentiras, pensamos quando lembramos, -lembro de você todo o tempo, lembrança, algo que passa, não vivemos de lembranças, -quero você, sexo, disfarçado de amor, -so tenho desejo por você, mentira, o desejo e instintivo, independe da razão, -viveremos juntos até a velhice, mentira, vão ficar juntos porque a pensão e pouca, -você e o único amor de minha vida, mentira, ninguém ama para sempre, -moraria embaixo da ponte com você, mentira, apenas faria isso se não tivesse alternativa mais te trocaria pelo calor de uma bela casa.

Esse e o amor, a grande mentira, embasada por estúpidos, como um gigantesco circo chinês onde todos os artistas se equilibram sorridentes enquanto passam fome, dormem em comodos fétidos e dividem banheiros públicos, amor e sinonimo de mentira, a grande mentira com um ótimo enredo e uma maravilhosa trilha sonora, eterno como um blockbuster que dura apenas um verão.

 

• Dinorah (Fernanda Lizardo)

Dinorah

Texto em Anexo no formato PDF

 

• Existindo em Você (Daniela Lima)

EXISTINDF

Suavidade, delicadeza e, ao mesmo tempo, um vigor característico. A paixão levada aos limites extremos do corpo; mais um acorde e estaria. A noite se fechou em um ponto de superação: vibrato perfeito. Através da música pulverizava o desejo; nela deixava de existir individualmente: tornava-se som. Após largar o arco sentiu um grande vazio – precisava ligar pra ele e falar sobre a pequena realização, assim, e só assim, saberia que foi real. Os fatos só tomavam forma em sua mente quando ele participava, mesmo que de forma indireta, deles – Escuta este acorde por compaixão – compaixão? Nunca quis despertar este sentimento em ninguém – ou quis? Bom, depende, se entendermos compaixão como co-sentimento e não apenas como co-dor; a resposta é sim. Ela queria que ele se co-satisfizesse, assim os dois estariam unidos por algo supremo e não-carnal. Era um sentimento supremo que ela buscava. Tirou o telefone do gancho e ficou ouvindo o barulho por alguns segundos; colocou o telefone no gancho. Talvez a vida dele não precisasse dessa minúscula co-felicidade – um grão de açúcar no vazio. Perdia-se nas mais fantásticas digressões sobre o vazio dele e, de repente, ela o sentiu. Não era imaginar; era sentir o vazio dele em si. Desesperador. Realmente compaixão era um sentimento perigoso, finalmente conseguira compreender porque Nietzsche o condenava tanto. Ele já deve tê-la esquecido, afinal o que uma mulher como ela representaria na vida dele? Sentia um medo muito grande da verdade contida nessa resposta. Silêncio. Sentia medo do tempo se arrastando, tal qual um verme, e destruindo o que sobrou de belo. Tudo se decompondo em notas musicais – o tempo aprisionado na mais bela melodia: no vibrato perfeito. No vibrato que só existia nele – nela; co-existência. Colocou o telefone no viva-voz; esperou que ele atendesse; e tocou como nunca havia tocado antes: com fome de realidade.

Suavidade, delicadeza e, ao mesmo tempo, um vigor característico.

• Espiral (Arnaldo Andrade) (M)

TT110

Foi ver você no meu portão, atravessando um cachorrinho por entre as grades apenas para me ver, foi ver você naquela varanda, derrubando sorrisos como se fosse uma cachoeira em minha direção, foi ver você naquele mês de Julho, frágil, doce, mais bela do que jamais eu poderia imaginar, foi ver você na semana passada correndo em minha direção chorando e me abraçando como se fosse o último dia no mundo, pensei comigo mesmo, como seria possivel você ser tão linda por dentro como é por fora, desejei você cada segundo da minha vida, mesmo sem saber, mesmo sem querer, encontrei você no inverno de Alegre, com a nossa cama sempre cheia de petalas de rosas, vi você, aspirei ser uma espiral, estiquei meus braços em sua direção até não poder mais, e quando finalmente te toquei eu conheci o sublime.

 

• Eu Prezo muito meu passado (Fernanda Lizardo)

PrezoPassado

Eu prezo muito meu passado, portanto seria incapaz de me livrar dele. Posso até não divulgá-lo, mas nunca o apagaria. Nunca entendi bem as meninas que rasgam os diários da infância/adolescência, os homens e mulheres que queimam bilhetes, cartas e fotos de ex-parceiros(as), as pessoas que eliminam suas memórias. Entendo que há muito lixo acumulado na vida de cada um - e a falta de espaço para tudo é inquestionável -, mas realmente não compreendo o porquê de algumas pessoas não fazerem questão de preservar boa parte de suas memórias. Sempre ouvi que somos resultado do que vivemos e fizemos. E concordo. Então, não haveria razão para ignorar meus percalços ou palavras ditas. Penso que quem não sabe preservar a própria história tem medo de se contradizer. Teme que suas opiniões do passado sejam confrontadas com as de hoje. Tem medo de dizer que mudou de opinião e gosta de fingir que "sempre foi a pessoa que é atualmente", como se isso fosse possível. É mais ou menos como a modelo (sic) que posa nua e que, depois, arrependida, faz de tudo para tirar as fotos de circulação. Ou o homem que muda de namorada e tenta apagar o passado com uma borracha - tudo para tentar fingir para si que a mulher nova é "definitivamente" o amor de sua vida. Bobo isso. Particularmente, acho uma delícia vasculhar meu passado, ainda que ele tenha tido momentos nada louváveis (pouquíssimos até!). Mesmo porque momentos relativamente desagradáveis ganham nova roupagem com o passar dos anos e perdem a importância que outrora tiveram. Até os momentos bons, na verdade, também adquirem novo caráter. Não falo de "viver de glórias passadas" (como muita gente faz, esquecendo-se do presente), mas de considerar o acontecido um ponto importante da vida. O foi merece a mesma atenção do é e do será. Reformulações e renovações são sempre bem-vindas, mas se você não é capaz de manter registrado o que passou, certamente também não será capaz de captar o melhor de si mesmo. Faz parte do amadurecimento preservar o que foi vivido - é prova de que você admira seus próprios feitos, ama o indivíduo que foi, é e pode vir a ser.

• Papeis de Carta (Arnaldo Andrade) (JR)

Papeisdecarta

Guardava uma caixa cheia de papeis de carta, assim poderia mandar seus escritos de amor a cada novo pretendente. Tinha um acervo de frases feitas que se colocadas uma ao lado da outra dariam a volta ao planeta. Era uma excelente atriz, criava situações perfeitas, momentos inesquecíveis a cada novo estúpido que encontrasse pela frente, na cama fingia com exatidão, chorava ao falar de amor, pincelava letras de músicas piegas para se fazer presente a todo o momento, contava histórias tristes e sofridas, falava “eu te amo” a cada dez frases ditas, plagiava versos de autores desconhecidos, se pintava de perfumes fortes para ser lembrada, se fazia de prendada e dizia que a simplicidade governava seu mundo, era carinhosa e fazia promessas, criava histórias de amor impossível, dizia que seus sentimentos pelo novo amor eram incomparáveis com tudo que já tinha vivido, se desfazia dos namorados anteriores como se não tivessem a menor importância, mentia sobre a própria realidade descaradamente, traia com a indiferença necessária e depois negava veementemente como se nada tivesse acontecido, tinha uma caixa de fotos de ex-namorados que admirava de tempos em tempos para saborear suas conquistas.

Mais os papeis de carta foram ficando amarelos, suas frases já eram conhecidas e ela não criava novas, suas atuações foram ficando cada vez mais medíocres e seus momentos perfeitos chatos, seus corpo ficou feio e velho e mesmo seus fingimentos não agradavam a ninguém, suas lagrimas não caiam mais, suas músicas ficaram desconhecidas, sua poesia antiquada, suas histórias repetitivas, já não falava mais “eu te amo”, seus autores desconhecidos ficaram manjados demais, seu perfume foi superado pelo cheiro da velhice, suas prendas se tornaram inúteis, sua simplicidade se tornou desleixo, seus carinhos ásperos, suas promessas vazias, suas histórias se confundiam tanto que era impossível conta-las da mesma maneira, não convencia mais ninguém com suas declarações, os antigos namorados refizeram suas vidas, suas mentiras se tornaram evidentes, ninguém mais a desejava e não havia mais a quem trair, a caixa com as fotos se perdeu, suas campanhas de conquista fracassaram.

Ficou velha, os filhos casaram e foram embora, os parentes cada vez mais distantes a abandonaram,vivia de amores em amores, vivia de sonhos falsos, mais o amor de verdade desperdiçou tanto que não sobrou nem uma gota para sustentar seus dias, sabia conquistar, sabia fingir, sabia desprezar, mais amor de verdade não sabia o que era.

 

• Lingerie (Cabaret) (M)

Lingerie1

O que eu não quis repetir aconteceu. De novo eu estava ali. Num quarto escuro, meu olhar, sem ter pudor, tirava sua lingerie.

Faz tempo que eu prometi que nunca mais você ia me ver aqui. Mas, como um vício, o inferno volta E eu não tenho mais como fugir. As suas falas são todas iguais... Como um filme antigo, um déjà vu fatal. E eu sempre morro no final

Amor, devagar e pouco a pouco. Eu vou me vingar. Amor, devagar e pouco a pouco. Você vai pagar...

Cada beijo agride e a noite me faz mal. Me faz ter náusea de você. Mas como um vício o inferno volta... E eu não tenho mais o que fazer. Me deixa ir, me deixa escapar. Abre essa prisão, aqui não é meu lar. Aqui ainda vou te matar!!!

Amor, devagar e pouco a pouco. Eu vou me vingar. Amor, devagar e pouco a pouco. Você vai pagar...

Não tenho mais nada a dividir. Não tenho mais como implorar. Se for pedir muito a solidão. Se você não vai querer perdão.

Não dê as costas para mim...

Não dê as costas para mim!

Amor, devagar e pouco a pouco. Eu vou me vingar. Amor, devagar e pouco a pouco. Você vai pagar...

Você vai pagar...

• Como o mar (Arnaldo Andrade) (M)

AZUL1

Depois da tempestade a calmaria.

O silêncio ao redor dessa varanda em pleno oceano entra em choque com a onda sonora, aguda e alta de felicidade e conforto que sinto percorrer essa alma que me veste.

O tempo tem muitos significados aqui, existem muitas formas de preencher os momentos, mais eu quero contemplar o nada, quero não fazer nada, somente sentir essa paz que foi minha grande conquista em muito tempo, quero dormir plenamente, viver com alguma clareza, entrei nesse navio com um objetivo único.

Deixar de existir do lado de fora dele.

Descobrir que dizer sim sempre transforma o mundo ao meu redor, que a sofisticação e o luxo precisam de humildade para serem apreciadas com plenitude, que o dinheiro pode sim comprar qualquer coisa, mais que primeiro e necessário fazer valer a pena, que sexo se compra mais amor não se compra nunca e não depende de condições para existir, que todas as oportunidades devem ser agarradas como jóias raras, que nada vale a pena sem amigos para compartilhar, que sorrir no momento certo pode mudar a vida de alguém, que nada e eterno e apenas diamantes tem essa prerrogativa, que vestidos pretos e sapatos vermelhos ficam lindos na pessoa certa, que a companhia perfeita e aquela que sempre está ao seu lado em todos os momentos, que vinhos chilenos, argentinos e californianos são bons, mais parecem vinagres diante dos franceses e italianos.

Vivi um dilema momentâneo a poucas horas atrás, me afundar na escuridão do mar ao meu redor e continuar esse ciclo de sonhos e decepções ou seguir para o deck dos restaurantes desfrutar da vida e da realidade que me espera.

Diga-se de passagem, o jantar estava ótimo, o Composizione di gamberi era uma obra de arte.

 

 
Utilização | Data Center | GDA Acesso | Rádio

©2009 - Arnaldo Andrade®